SÃO PAULO SP1/SP

Música, Neurociência e Aprendizagem - A nossa música favorita

Neurociência

14 Julho, 2017

A nossa música favorita.

O texto de hoje, escrito em pleno mês de julho, época de férias escolar no Brasil, trata de um assunto leve e que nos comove todos os dias, um tema que envolve a grande maioria das pessoas no mundo. O texto de hoje fala sobre a nossa música favorita, aquela música que ao tocar leva a nossa atenção com ela, nos deixando em um estado contemplativo; por  vezes nostálgicos, por vezes vigorosos. E mesmo sabendo que podemos ter mais que uma música favorita nas nossas predileções, vamos nos ater naquela música que é considerada por nós como a melhor delas, no sentido de ser a música que mais acessa nossos afetos, sejam prazerosos ou negativos, normalmente uma música preferida acessa aspectos positivos da nossa lembrança, mas algumas pessoas podem ter associações com tristeza ou melancolia. Estou falando aqui daquela música que quando escutamos somos invadidos por lembranças. Aliás, já vai aqui uma dica: a pesquisa que eu comentarei hoje sugere que em alguns casos o que gostamos na nossa música preferida não são os seus acordes ou a sua harmonia; nós gostamos, ou nos relacionamos, com as lembranças que essa música traz e que inconscientemente bombardeiam o cérebro e disparam uma química cerebral propícia a alta emoção.

Uma pesquisa feita pelo professor Dr. Jonathan Burdette da Wake Forest Baptist Medical Center, com vinte e um participantes, e que utilizou um aparelho de Ressonância Magnética Funcional, trouxe resultados fantásticos para os estudos unindo música e cérebro. Os participantes se expuseram à audição de duas categorias de músicas diferentes enquanto seus cérebros eram mapeados: uma categoria continha músicas de cinco estilos diferentes: erudita, country, rap, rock e música chinesa, e uma outra categoria com músicas previamente escolhidas pelos participantes como sendo as suas músicas favoritas. O que se percebeu são três possíveis respostas cerebrais: quando não gostamos, quando gostamos e quando a música realmente nos toca, aquela música preferida. As atividades cerebrais do gostar ou do não gostar não foram tão entusiasmantes para o pesquisador e sua equipe, mas perceberam que quando o participante ouvia o que ele descrevia como sendo a sua música preferida, uma revolução acontecia no seu cérebro, principalmente nas regiões associadas ao foco, concentração, empatia e autoconhecimento. Essas regiões eram pobremente ativas quando se ouvia uma música que não se gostava, era um pouco mais ativa quando a música era prazerosa, e completamente ativadas quando ouvíamos a nossa música preferida. Isso demonstra que de alguma forma ao ouvir a nossa canção predileta e nos entregar à sua escuta, estamos ativando de maneira muito positiva as regiões cerebrais que coordenam foco, concentração, empatia e autoconhecimento.

Em outros textos eu chamo a atenção para a necessidade de variar o repertório em sala de aula, utilizando músicas desconhecidas e de outras etnias. Portanto, o que eu chamo a atenção é para um tipo de trabalho que desenvolve a questão cognitiva do ouvinte, não se trata de uma relação emocional com a música, mas sim de uma relação intelectual com ela; não se trata do que a música causa, mas sim de identificar fenômenos durante a escuta musical. Quando utilizamos músicas com ritmos diferentes dos habituais, com melodias estranhas à primeira audição, estamos estimulando o poder de processamento auditivo e reflexão intelectual, estamos trabalhando a todo vapor com o nosso córtex pré-frontal. No caso da pesquisa do Dr. Burdette, que demonstro aqui no texto, o alvo é outro: fazer com que o indivíduo reviva emoções de cunho positivo, estabelecendo relação direta entre o sistema cerebral auditivo e o sistema de memória e de consolidação de emoção social, ou seja, estamos trabalhando mais a emoção e menos o intelecto, apesar de sempre existir uma ligação entre os dois. Por todos esses benefícios e tantos outros: Viva a música!