SÃO PAULO SP1/SP

A Jornada do Aprendiz, por Max Franco

Metodologias Ativas

14 Julho, 2017

Educação e metodologias ativas


Ultimamente, tenho me aprofundado no estudo das metodologias ditas "ativas", as quais têm sido, nos últimos tempos, tão alardeadas no mundo da Educação. A razão deste aprofundamento advém do fato de, ultimamente, me encontrar debruçado num projeto de fazer "brilhar os olhos". Estou desenhando uma pós graduação em Metodologias ativas para o IBFE (Instituto Brasileiro de Formação de Educadores). O motivo desta iniciativa é simples: todo mundo diz que está errado, mas poucos propõem sugestões aplicáveis. É já senso comum entre os professores que precisamos modernizar as práticas da escola. Os velhos modelos caducaram, mas precisamos saber o que colocar no lugar. Necessitamos, então, de prover aos educadores o repertório necessário para educar com eficiência sintonizado com as demandas da modernidade. 

Trabalho em Educação faz 30 anos e há 300, ouço que a Educação tem que evoluir. O conteudismo e a passividade do aluno têm seus dias contados faz séculos. E, até vejo esboços e arroubos de mudança aqui e ali. Mas, a verdade é que a aula tradicional e expositiva ainda vigora saudável e majoritária, mostrando força e aparentando que veio para ficar ad aeternum. 

As tais "metodologias ativas", portanto, aparecem como um contraponto diante das velhas postulações pedagógicas. Na verdade, nem são tão novas assim. John Dewey, Piaget e Paulo Freire defendem modelos alternativos de Educação faz dezenas de anos. No entanto, foram as mudanças de prática de ensino de grandes e respeitáveis universidades, como Harvard e Stanford, que trouxeram à baila novamente essa discussão em torno de novas didáticas.

E o que são estas metodologias? O nome já revela: ativas. O aluno deve sair da passividade e se tornar protagonista do processo de aprendizagem. Precisa aprender a aprender e aprender através de práticas, se envolvendo emocionalmente, se engajando, cooperando, se expondo, discutindo, investigando e resolvendo problemas. O nome da vez é autonomia. 

São muitas as atividades que podem ser realizadas na escola. Entre elas, ultimamente, há grande curiosidade sobre o ensino híbrido, a sala de aula invertida, o Storytelling, o PBL, o estudo do meio, as técnicas de perguntação e muitas outras metodologias que levam o aluno a trabalhar em grupo, pesquisar, pensar sobre, criar soluções e construir o próprio conhecimento.

O professor, portanto, deve deixar de ser o ator principal e assumir uma posição estratégica: a de um mentor. Alguns chamam de facilitador, tutor, designer. Eu prefiro chamar de mentor e explico o motivo. 

Joseph Campbell, na sua erudita obra "O herói de mil faces", vai demonstrar como as grandes histórias, mitos e lendas da humanidade trazem uma mesma sequência, aquilo que ele batizou de Monomito ou a célebre Jornada do herói. Este famoso e eficiente modelo acabou sendo adotado por romancistas do mundo inteiro e roteiristas de cinema, os quais o utilizam na confecção de histórias com mais frequência do que a maioria das pessoas (desavisadas) desconfiam. Em Hollywood, por exemplo, é difícil de se encontrar algum filme, de grande repercussão, que não tenha utilizado a Saga do herói como modelo de inspiração. 

Para Campbell, a grande aceitação do Monomito acontece por uma razão simples: este modelo arquetípico está incrustado na psiquê humana, fazendo parte há milhares de anos do nosso inconsciente coletivo. O "Encontro com mentor" é uma das fases mais decisivas da sequência da Saga do herói. É por isso, que prefiro chamar o professor atual de mentor, afinal, a necessidade de referências é um elemento comum e ancestral na forma de pensar da humanidade.

E quem é o "aprendiz"? (Olha que bacana!) Decerto, o papel do aprendiz é o de herói!

É só observar o quadro que resume o Monomito para entendermos como ambos estão ligados.  O processo de aprendizagem é sempre uma jornada heróica. 

O estudante, a rigor, acostumado ao seu mundo comum, é convidado a realizar uma viagem de aprendizagem. Coisa que ele costuma evitar, seja por mera preguiça ou por insegurança. Todavia, ele é impelido a participar. O papel do mentor é substancial. Ele pode facilitar ou dificultar muito a expedição do nosso herói. Afinal, o papel do mentor é o de treinar o herói para as crises e lutas que se apresentam no seu caminho de descobertas.Basta se lembrar dos professores Dumbledore, Gandal, Senhor Myagi e até do Hannibal nos filmes para entendermos qual deve ser o papel deste mentor. Quando o herói-aprendente atravessa o primeiro portal aceitando a aventura, ele encontrará na estrada aliados e inimigos e superará dificuldades que vão prepará-lo para a grande crise que se aproxima. Mas, qual é essa crise? Ela pode aparecer de várias formas, mas, em suma, é o momento em que o nosso protagonista for mais testado e exigido. A hora na qual ele se debate para compreender algo que ele não sabia. É a luta com o dragão pela obtenção do tesouro. Todo aprendizado é sistemicamente uma vitória sobre a ignorância. E, certamente, esta vitória traz sempre recompensas e uma ressurreição. O sujeito dessabedor morreu. Renasceu um que sabe. Diferente do anterior. E é no retorno, na volta para casa, quando o herói compartilha este novo conhecimento com alguém ou com a sua comunidade, que a jornada é concluída com sucesso. Quem é o herói? É aquele que luta, vence, renasce e ensina para os demais. É o destino, portanto, de todo herói se tornar mentor. Ele, afinal, no mínimo, deixa um exemplo, uma lição, um aprendizado, para a coletividade. É o elixir.

É este processo que está no DNA da metodologia ativa, porque é este o fenômeno que é vivido numa aula desenvolvida com modelos ativos. Os alunos são sempre desafiados a ultrapassarem obstáculos e a resolverem problemas impostos e planejados pelos seus professores-mentores. Problemas que devem ser solucionados em pares, grupos ou individualmente com criatividade, empenho e engenho. É um simulacro, em menor da escala, da Jornada do herói, e, na verdade, da própria vida.

O modelo tradicional também proporciona barreiras, o problema é que elas se resumem às avaliações, aos exames. São pontuais e individuais.  Enquanto, no caso da metodologias ativas, são constantes e em equipe, apesar de sempre ser exigido o conhecimento prévio de cada um. Os alunos são avaliados individualmente, mesmo que a atividade seja em grupo. Este paradigma reproduz o nosso cotidiano profissional, onde, diariamente, estamos nos dedicando a ultrapassar desafios e, em muitos casos, trabalhando com subordinados, pares e chefes. Exatamente como prevê a Saga do herói, onde, no afã de se enfrentar uma dificuldade, também se encontra aliados e inimigos pelo caminho. 

Sem dúvidas, este paralelo entre as práticas de metodologias ativas na Educação e o paradigma da Jornada do herói, de Campbell, é um terreno fértil para um latifúndio de argumentos e ponderações. O meu desejo, neste artigo, foi apenas de fazer uma menção, um mero aceno para servir como prévia para uma longa conversa, que irá desembocar no livro que pretendo concluir ainda neste ano, o "Storytelling e suas aplicações no mundo da Educação" e, é claro, neste novo curso de especialização que o IBFE está lançando. 

No entanto, o meu maior desejo é o de provocar nos educadores o desejo de fazer diferente. De sair da sua zona de conforto milenar e ter a coragem de oferecer aos alunos aquilo que nunca deveria ter saído das suas mãos: a protagonização do próprio saber. 

No fim, todos os caminhantes desta jornada do aprendiz estarão invadindo um novo território e, por conseguinte, encontrando grandes desafios. Todos, entretanto, terão mais a aprender nesta estrada do que trilhando velhas trilhas. Quem sabe, assim, abrindo novos caminhos, também poderemos construir um novo mundo. Um lugar melhor de se viver, criativo, equânime, justo e  solidário.