Pensar, conhecer e realizar | A Educação e o Cuidado - por Jorge Luiz da Cunha

A base de toda a pedagogia inspirada é a virtude do amor para com o outro que nos dispõe ao amor por nós mesmos. Contudo, convém ressaltar que aqui não se trata de afirmação de cunho ideológico religioso. No campo que nos é específico, o da educação, basta utilizar o cuidado como analogia ao amor. Mais do que um conceito o amor é uma práxis que, dentro e fora da escola, estrategicamente indica a mais alta possibilidade humana: - de superar qualquer experiência de negatividade e malogro.

No cuidado vinculado a educação, compreende-se um profundo compromisso com o humano em plenitude e com o planeta com todas as coisas nele criadas e desenvolvidas. Trata-se de compromisso pedagógico e político com o exercício da inteligência, que no esforço de conhecer sem dispensar ou discriminar qualquer fruto da inteligência humana - ciência e tecnologia -, não negligencia a ocupação com a felicidade de cada um e de toda a sociedade.

Este educar cuidando deve ter um caráter lógico, sistemático e crítico, que apresenta uma visão humana do mundo. Visão essa que anuncia mais pela autoridade do educador em seu jeito de estar no mundo, do que por qualquer prática transmissora de informações ou de caráter ideológico e doutrinador.

Este cuidar como prática pedagógica do educador, é prática escolar que presencializa o diálogo com a cultura na busca constante do reconhecimento de si na relação com o outro, construindo nesta dialética a única possibilidade de plena autonomia.

Historicamente, dos gregos ao tempo presente, cada ser humano define-se individual e coletivamente, objetiva e subjetivamente, através da acepção sintética entre a existência no mundo e o significar-se nele através da linguagem, da narrativa. O mundo reconhecido como espaço humano, não dado aos homens pelas forças transcendentes, mas construído e incessantemente reconstruído e identificado pelos costumes, hábitos, prescrições, leis, normas, proibições, tabus, valores e ações. Ou seja, uma prática e uma reflexão, como hábitos, que articulam modos de ser e viver orientados pelo conhecimento, pela razão, mas também pelo desejo e pela imaginação. Tudo isso sempre identificado e acessado pela linguagem, pelas narrativas, caracterizadas por seu conteúdo biográfico ou autobiográfico estrategicamente definido objetivamente, como imanente (a experiência sensível, relativa, contingente, multíplice e variável), ou subjetivamente, como metafísico (absoluto, necessário, único, imutável). Contudo, penso que o narrar o outro - que inclui o mundo -, e narrar a si, deve ser considerado como acesso a uma práxis social, cultural, política, de estranhamento e  des-naturalização, e consequentemente de exercício de unidade entre ser e pensar, viver e narrar.

O que é estranhamento e a desnaturalização senão o confrontar-se? Pôr-se frente a frente seja com outro exterior ou outro eu? Pôr-se frente a frente e enfrentar esse estranho que questiona, que perturba por excesso ou por falta, que incide sobre a curiosidade e o desejo e esse natural que molda, acomoda, incomoda. Estranhar/desnaturalizar é um ato educativo, pois mobiliza e transforma. Exige revisão e reordenação de si. Estranhamento e desnaturalização como ato pedagógico visa a ampliação da visão de mundo e horizontes de expectativas de si nas relações sociais, pois contribui para o protagonismo ao desestabilizar e rearticular.

O estranhamento não é somente do outro, mas também de si. O espanto também acontece em situações que vivenciamos e diante de nossas próprias atitudes. A desnaturalização da nossa história de vida, do cotidiano, nos envolve enquanto sujeitos de conhecimento que são sempre sujeitos em relação. Assim, desnaturalizar-se significa desnaturalizar o outro.

Disso depreende-se a necessidade de não descartar nas práticas docentes, em todos os níveis de escolarização, qualquer tema, qualquer experiência individual e coletiva de qualquer um dos envolvidos. Perfilar nossa profissão, nossas práticas docentes e os resultados, com determinações externas, mesmo que legais, afasta o que fazemos - dentro e fora das salas de aula - da possibilidade de criar o novo a partir do estranhamento que nos leva a desnaturalização. É por isso que amar o outro, para amar a si mesmo, ou seja, como educadores nos ocuparmos com o cuidado e a defesa da condição humana, daqueles com os quais nos envolvemos, tem hoje um caráter absoluto de resistência e construção de um conceito e uma práxis de educação aberto, moderno, possível e necessário.