Educação em foco: Uma escrita para falar de escritas outras.

Educação em foco

05 Agosto, 2016

Uma escrita para falar de escritas outras

 

Caro leitor, cara leitora:

 

            Venho, por meio desta, partilhar a experiência assumida pelas alunas ingressantes no Curso de Pós Graduação[1] quando buscamos possibilitar subsídios sobre a alfabetização em contextos de letramento por meio de estudos referentes às práticas pedagógicas pelo direito social a uma aprendizagem significativa.

            Provavelmente você concorde comigo que o desafio que se impõe neste nosso lugar docente é o de aproximar, ao máximo, o que defendemos, o que expressamos pelo discurso e o que revelamos em nossas ações. Por essa razão, a ideia que me movia era pautar nossos encontros em propostas que pudessem acolher, problematizar e ampliar nosso entendimento sobre os conteúdos que envolvem o trabalho com a alfabetização na escola e suas implicações com a formação dos professores.

Em Canário (2006)[2] é que ancoro minha crença de que a aprendizagem consiste num trabalho que o sujeito realiza sobre si próprio, afirmação que nos impulsiona a repensar as metodologias formativas que propomos aos nossos estudantes, colocando em cheque,nossas concepções sobre formação na centralidade da pessoa que aprende e denunciando se e como oportunizamos a formação para "profissionais autônomos e criativos, capazes de pensar e definir o seu ofício" ( p. 27). 

Assim, por sustentar o princípio de que somos todos produtores de conhecimento na interação com o outro e por conta de estudos anteriores que indicaram a escrita como potente dispositivo reflexivo sobre a prática profissional[3], é que propus às alunas que produzissem relatos escritos sobre a experiência de cada aula. Não havia nenhuma indicação referente ao gênero de escrita ou qualquer outra delimitação quanto à forma de escrever. Havia, entretanto, a necessidade de que assumissem uma determinada posição: a de sujeitos-autores.

No início de cada aula, as alunas, vencendo o receio da exposição, liam suas escritas para todo o grupo, enquanto eu acolhia algumas questões, fazendo apontamentos no quadro.

 Pois bem! É sobre esse movimento inquieto e enriquecedor de escrever, ouvir e refletir sobre a escrita alheia que venho aqui dialogar.

A escuta atenta à palavra escrita da colega possibilitava que rememorássemos o vivido na aula anterior, fizéssemos articulações entre conceitos, alinhavássemos algumas elaborações e construíssemos outras novas e diferentes problematizações.

A apreciação das escritas produzidas sobre nossas aulas apontou aspectos significativos quanto à sua forma e conteúdo que nos remeteram à reflexão sobre a constituição de vínculos que tecem a identidade de um grupo e sobre a prática do registro reflexivo como elemento fundamental para a construção do conhecimento sobre o nosso trabalho cotidiano, reafirmando que "o ato de escrever sobre si é também uma forma de diálogo, ou seja, um diálogo com os textos que se escreve, uma vez que a escrita realiza a palavra e permite a escuta atenta à interioridade do sujeito" (Pierini, 2014, p.288)[4].

Finalizo, expressando o desejo de que esta correspondência, nalguma medida, possa inspirar escritas outras.

 

Adriana Stella Pierini
Graduada em Letras e Pedagogia; Mestre e Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Continuada (GEPEC). Docente do curso de Pós Graduação em Alfabetização e Letramento do Instituto Brasileiro de Formação de Educadores (IBFE). Trabalhou como Orientadora Pedagógica da Rede Municipal de Ensino de Campinas e como formadora do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (MEC). Atua nas áreas de formação docente, articulação do trabalho coletivo, constituição do trabalho do orientador/coordenador pedagógico e alfabetização e letramento.  

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