Educação em Foco| Uma educação a favor da vida - por Rodrigo C. Fonseca

Educação em foco

02 Agosto, 2017

A preocupação com o meio ambiente, com a biosfera, com temáticas referentes a sustentação e a qualidade da vida na Terra, entraram definitivamente na pauta dos principais fóruns de educadores, gestores e lideranças de instituições públicas e privadas. Experiências da vida contemporânea nos apresentam contingências inscritas em uma categoria de desafios jamais experenciados. A eficiente globalização de tensões locais (culturais, étnicas, religiosas, ambientais, sociais, econômicas, etc.) contextualizou em nossa realidade prática e tangível o conceito de causalidade global, descortinado pela mecânica quântica na segunda metade do século passado, que afirma que a relação causa/consequência não depende de proximidade ou vizinhança. Temos testemunhado de forma clara e evidente que os problemas e as tensões dos nossos vizinhos não são exclusivos dos nossos vizinhos, pois exercem um impacto amplo, transfronteiriço, e exigem, assim, ações coordenadas de diferentes povos e nações, possíveis se, e somente se, aprendermos a nos entender como humanidade, aprendermos a conviver como uma única nação planetária. 

A complexidade deste cenário é inédita na história da humanidade. Não há referências anteriores e não temos estratégias ou metodologias consolidadas para as transformações e atuações necessárias em âmbito global. Claramente, se faz urgente o desenvolvimento de novas potencialidades e inteligências humanas em busca por competências capazes de atuar, ética e criativamente, na construção de um mundo mais justo e sustentável. 

A construção de uma sociedade global justa, com atuação direcionada para o bem comum (em oposição a atuações com interesses exclusivamente privados, particulares), organizada em práticas realmente sustentáveis, têm uma interface muito significativa com a sustentabilidade ecológica, mas não se limita a ela. O surgimento de uma nova cultura capaz de contribuir para a eliminação das tensões que ameaçam a vida em nosso planeta será impossível sem um novo tipo de educação que leve em consideração todas as dimensões do ser humano. Uma comunidade humana sustentável deve ser fruto de um paradigma educacional atuante de forma que nossos modos de vida, nossos modelos políticos e econômicos "não interfiram na habilidade inerente da natureza de sustentar a vida"¹. Maneiras de pensar e agir que sejam manifestações de uma nova arte de viver. De acordo com o pedagogo Moacir Gadotti², esse novo paradigma educacional deve ser condizente, para que possa ser posto em prática, com um conceito de sustentabilidade que vai além da preservação dos recursos naturais e da viabilidade de um desenvolvimento sem agressão ao meio ambiente. "Ele implica um equilíbrio do ser humano consigo mesmo e com o planeta, mais ainda, com o universo. Esse conceito de sustentabilidade refere-se ao próprio sentido do que somos, de onde viemos e para onde vamos, como seres do sentido e doadores de sentido a tudo o que nos cerca"³. 

A educação para a sustentabilidade, no sentido aqui proposto, necessita de uma prática contextualizada por meio de experiências vivenciais, buscando sentido em cada ato, enaltecendo nossa consciência reflexiva e evitando, assim, a burocratização do olhar. Práticas pedagógicas que estabeleçam uma relação crítica entre o pensar e o agir e que possam nos conduzir, efetivamente, da consciência de um mundo melhor para a construção de um mundo melhor. Como escreveu Paulo Freire: "o homem não vive autenticamente enquanto não se acha integrado com a sua realidade. Criticamente integrado com ela. E que vive uma vida inautêntica enquanto se sente estrangeiro na sua realidade. Dolorosamente desintegrado dela. Alienado de sua cultura"?. 

Uma pedagogia comprometida com os desafios contemporâneos requer uma revisão bastante crítica das estruturas curriculares tradicionais. Apenas as pilhas de livros sobre física, história, matemática, sociologia ou ecologia não criam condições para uma consciência ecológica, não desenvolvem a sensibilidade em relação à Terra e toda sua diversidade como nosso único lar (êthos) e nem desenvolvem a ética (éthos) que fundamenta essa percepção. O paradigma conteudista, ao representar a leitura de mundo que não é da práxis? e nem da vivência, sustenta e reforça o entendimento da realidade como recurso e objeto de apropriação, usurpação ou, quando muito, objeto exaltado pelo seu caráter contemplativo e distante.

Diante do exposto, se faz urgente e imperativo propostas educacionais organizadas em análises, reflexões e intervenções de diferentes dimensões e profundidades em nossa realidade. Iniciativas pedagógicas que apresentem um caráter vivencial, participativo e que busquem, por meio do diálogo, das trocas, das relações estabelecidas e, principalmente, de interações críticas e sensíveis com o socioambiente, incentivar educadores, educadoras, educandas e educandos a conhecer, interpretar, refletir e reinventar com criatividade e alegria a nossa realidade. 

Carregamos a intenção, assim, de reforçar a urgência de uma nova cultura pedagógica, enraizada em um novo paradigma educacional e esperamos por você, educador e educadora, para transformar essa urgência em ações educativas direcionadas pelo respeito e cuidado com a comunidade da vida.


¹ CAPRA, Fritjof. Ecoalfabetização.
²  Professor Titular da Universidade de São Paulo (USP), Diretor-Geral do Instituto Paulo Freire, São Paulo.
³  GADOTTI, Moacir. Pedagogia da Terra. São Paulo: Peirópolis, 2000.
?  FREIRE, Paulo. Educação e atualidade Brasileira. São Paulo: Cortez, 2002.
? A práxis é um modo de compreender a existência a partir da relação entre ação e reflexão. Desenvolver um pensamento pedagógico na práxis é evidenciar a relação entre humanização e educação. Paulo Freire aprofunda esse conceito no campo pedagógico como sendo a capacidade do sujeito de atuar e refletir, isto é, de transformar a realidade de acordo com as finalidades delineadas pelo próprio ser humano.

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