Educação em foco l Narcisismo nas Mídias Sociais

Educação em foco

02 Dezembro, 2016

Narcisismo nas Mídias Sociais 


Já aconteceu com você? Por mais desleixada e despretensiosa que seja minha presença nas mídias sociais, num dia desses fui surpreendida por uma repercussão recorde de um post sobre minha vida pessoal. Felizmente eram comentários elogiosos que fizeram uma deliciosa "massagem no ego"! E depois de passar por isso - confesso - fiquei imaginando qual seria o segredo para "repetir a dose" e obter o mesmo sucesso! Posso dizer que esse é um dos maiores "apelos" apresentados pelas mídias sociais - o aplauso.

Na correria da vida mal paramos para nos perguntar: qual é o real valor dessas opiniões? Seria prudente dedicar toda a energia da vida para "agradar a galera"? Se estas são questões complicadas de avaliar até para um adulto como eu, que dirá para nossos adolescentes com sua psique em formação! E é justamente na época em que sua personalidade precisa se construir independentemente da opinião dos outros, que eles "se perdem" nas avaliações superficiais e virtuais das mídias sociais.

No mito de Narciso um belo rapaz muito convencido de sua formosura, encontra-se com uma linda moça chamada Eco. Amaldiçoada pelos deuses, Eco sempre repetia a última frase que ouvia. E quando Narciso lhe perguntava "Quem é você?", ela lhe devolvia a pergunta em eco: "Quem é você?"

É com base nesse mito que Freud desenvolve o conceito de "narcisismo". Para ele é na vivência de satisfação do bebê que se sente amado por sua mãe (ou quem dele cuida) que se forma a autoestima nos primeiros meses de vida. Sendo saudável, essa relação é a base protetora do psiquismo e gera uma sensação de completude por ser amado, desenvolvendo sua identidade pessoal, percebendo-se um ser diferente do outro.

Ao longo de nossa vida essa pergunta estará sempre presente: "Quem somos?" Resposta que Narciso deixou de obter de Eco, deixando-o "perdido" em sua própria imagem como num espelho.

É na adolescência que se torna essencial responder a três perguntas básicas: "Quem sou?"; "Que papel desempenho na sociedade?" (escolha profissional) e "Existe um lugar para mim no mundo?" (senso de identidade). Diante do desafio de encontrar essas respostas, o adolescente se sente vulnerável e facilmente opta pela fuga para as opiniões alheias como base para sua identidade. Mas a resposta que as mídias sociais lhe oferecem, em muito se assemelham à resposta de Eco: vazia, pobre, irreal, apenas o reflexo de um espelho... Ele tenta mostrar que é o que a sociedade aceita e gosta e não quem realmente pode ser. Cresce esperando do outro - de fora - a aceitação que teria que buscar em si mesmo.

Perdido nesse vazio, o adolescente entra num círculo vicioso. Quanto mais vazio se sente, mais recorre ao aplauso virtual, deslocando a energia com que deveria construir seu futuro e sua identidade, para a mera exibição de imagens (por vezes fictícias) de seu cotidiano em busca de um número cada vez maior de "likes" e de "seguidores". Deixa de valer o real, o concreto, o esforço e a vitória sobre os desafios, e passa a valer a imagem "sensual", as "selfies" em lugares lindos, em situações surpreendentes, ou as frases de efeito. A grande ironia é que no mundo virtual bastam as imagens, deixando cada vez mais de fora os sentimentos, os significados, a construção concreta de uma vida de utilidade que responda às perguntas essenciais que fundamentam nossa psique. 

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