Pensar, Conhecer e Realizar | Narrar para Humanizar - Jorge Luiz da Cunha

Recentemente em um painel com outros colegas educadores me vi mais uma vez debatendo os problemas da educação pública brasileira. E dentre as várias falas era unanime o reconhecimento por parte de todos os presentes que a escola ainda é um espaço excludente, e nela é presente de forma muito marcante casos de racismo, machismo e homofobia. E a pergunta que corroía minha alma era a seguinte: Onde erramos?

Talvez o erro não fosse nosso. Mas fugir da responsabilidade não é um papel que me agrada, mas sim problematizar e pensar  de maneira propositiva. Em pleno século XXI continuamos reproduzindo dentro das escolas os mesmos referenciais teóricos que orientaram a educação de nossos avós, ou melhor, usamos ainda os mesmos pilares epistêmicos da modernidade, colonialista, escravista e que orientou a formação de uma sociedade patriarcal, machista e racista durante todo o período colonial.

Esses paradigmas, ainda hoje, orientam nosso sistema educacional e não surpreendentemente encontrarmos nos espaços acadêmicos discursos retóricos que reafirmam tais paradigmas que parecem inicialmente contraditórios com o que chamamos de uma educação humanista e igualitária. Desta forma a contradição se estabelece desde a sua origem, ou seja, a formação acadêmica como norma. 

Pensando desta forma, e refletindo sobre as contradições existenciais do campo educacional pensamos que é necessário um debate de fundo sobre o sentido do ensino na sociedade atual, e mais do que isso, mais do que isso é necessário rever o sentido do processo ensino-aprendizagem. Para tanto nos aventuramos no campo da pesquisa (auto) biográfica trazendo as narrativas pessoais como uma possibilidade metodológica para uma mudança epistemológica no processo de formação dos educadores.

A narrativa, enquanto campo de pesquisa traz histórias de vida e disseca as singularidades e as peculiaridades intrínsecas de grupos sociais dentro de suas particularidades. Mais do que isso, as narrativas revelam um potencial transformador e que vai ao encontro do que definimos como um ensino mais plural e igualitário, pois ao se narrar, os indivíduos revisitam suas histórias e se assumem como protagonistas ao agir sobre elas e dar às mesmas um sentido (MACEDO, 2016).

Na mesma linha, Ferrarotti (2014) entende que as narrativas de histórias de vida estabelecem uma profunda relação com o contexto social e este atrelamento à sociedade industrial nos pré-codifica e dita os ritmos de nossas narrativas. Mas este condicionamento social confere às histórias de vida certas características que lhes dão uma singularidade única, o que exige do narrador um olhar para trás e para dentro, uma visão introspectiva e reflexiva.

As narrativas dão voz àqueles que foram invizibilizados e silenciados pelos processos históricos tradicionais que privilegiavam os grandes acontecimentos, tratados e os grandes vultos da história. Uma história a partir das narrativas visa a correção desta lacuna historiográfica e a superação de uma contradição representada por uma educação tradicional linear e formatada que excluía enormes massas populacionais da história. Cria-se assim, uma história pluridimensional e um enriquecimento de perspectiva que aborda outros campos do conhecimento como a história cultural, a história social e uma história das minorias.

"Cada narração de um ato ou de uma vida é por sua vez um ato, a totalização sintética de experiências vividas e de uma interação social" (FERRAROTTI, 2014, p. 73). A experiência assim dá contornos às histórias de vida e sentido às histórias narradas, fazendo com que cada indivíduo assuma a sua história e lhe dê um significado que a torna singular e totalizante, ao mesmo tempo, permitindo ao leitor entender a complexidade por trás de cada realidade individual.

A interação do processo de narrar-se é revelador sob a ótica da complexidade social e as tensões inerentes a ela. O ato de narrar revela o amago do narrador dentro de um contexto social de instituições e formatações dessa sociedade fruto de uma construção paradigmática de valores que definem o humano que há em nós.

Dar voz e visibilidade às histórias de vida de pessoas comuns compreende um processo dialógico de falar/agir/pensar/emancipar. Cada história de vida é uma ação social que se insere no complexo quadro social e de tensões que permeiam nossa sociedade, sendo assim, uma ação social, ela ao ser narrada precisa ser compreendida, ou seja, ela precisa ser revisitada, repensada como diria Keith Jenkins (2007).

É necessário que o narrador adquira sua própria historicidade, fazer brotar de dentro de si uma tessitura que atribua sentido aos fatos revisitados e assim construa-se o teor de uma narrativa com um nexo entre a reflexão do passado de caráter sentimental e uma lógica questionadora e problematizadora dos fatos revisitados. Historicizar a própria vida é atribuir sentido as rememorações. Essa atribuição de sentido é um processo interno que torna a experiência mais latente no sentido de dar a ela uma reapresentação diante de um quadro cronológico inserido em contexto mais amplo.

Esse exercício de atribuição de sentido é um mergulho na essência individual de cada um em busca de sua singularidade. Essa singularidade que atribui também uma historicidade à narrativa histórica carece de uma temporalidade, não em uma perspectiva histórico tradicional e linear, mas em uma escala de atribuição cronológica de fatos relevantes que dialoguem com marcos temporais significativos.

Outro aspecto importante sobre o caráter pedagógico da narrativa é a criação de uma identidade narrativa. Essa identidade diferente da formatação moderna de uma identidade fundamentada no individualismo e na normatização racional epistêmica da modernidade é um ato de questionamento retrospectivo que retoma uma ordem ontológica da filosofia grega que atribui ao conhecimento filosófico a capacidade inata de questionar e questionar-se provocando assim, um olhar para o passado a partir do presente...

"[...] a existência, porque humana, não pode ser muda, silenciosa, nem tampouco pode nutrir-se de falsas palavras, mas de palavras verdadeiras, com que os homens transformam o mundo. Existir, humanamente, é pronunciar o mundo, é modificá-lo. O mundo pronunciado, por sua vez, se volta problematizado aos sujeitos pronunciantes, a exigir deles novo pronunciar" (Freire, 1981, p. 92).

A reflexão de Paulo Freire nos leva à uma profunda inflexão entre o campo da pesquisa narrativa, o pedagógico e o existencial, colocando como protagonista desse processo de investigação, o ser humano. 

Narrar a si mesmo atribui sentido pedagógico a ação desempenhada pelo educador. Pois, a narrativa enquanto processo formador do educador reveste esse de um caráter humano dentro de uma perspectiva de reconhecimento das diversidades oriundas da realidade escolar, onde as vozes narradas e ressignificadas no espaço da sala e aula criam um campo dialético de reconhecimento mútuo e de trasbordamento de sentimentos para além dos paradigmas racionais mais sim repletos de encantamentos pelo processo de conhecer, viver e reconhecer o outro.


Referências:

FERRAROTTI, Franco. História e histórias de vida. Natal: Edufrn, 2014.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 6ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

__________. Pedagogia do oprimido. 9. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

JENKINS, Keith. A História Repensada. São Paulo: Editora Contexto, 2007.

MACEDO, João Heitor Silva. A implantação da Lei 10.639/03 como forma de inclusão social: uma etnografia da Lei. Identidade!. São Leopoldo | v. 19 n. 1 | p. 32-43 | jan.-jun. 2014.

_____________ . Narrativas empoderadas: A influência das ações afirmativas no empoderamento de negros e negras  In: Anais do I Congresso Internacional de Memória e História. Santa Maria. P. 147-163. 2017.