Pensar, conhecer e realizar | Educação escolar como espaço de construção social e visão de futuro - por Jorge Luiz da Cunha

A escola é um espaço, onde "o conhecimento intelectual aparece como suporte para a formação da cidadania, é o instrumento básico para o salto qualitativo entre a consciência ingênua e a consciência crítica" (FERREIRA, 1993, p. 221): - "Na consciência ingênua há uma busca de compromisso; na crítica há um compromisso e, na fanática, uma entrega irracional" (FREIRE, 1979, p. 39). Infelizmente, nem sempre a teoria está viva na prática. A ação política consciente, - nunca entendida como ideológica, doutrinária ou partidária -, exercitada através da práxis docente nos espaços escolares, infelizmente só aparece de forma esporádica e fragmentada, mesmo sendo reconhecida como necessária e essencial para a sobrevivência da sociedade; e anunciada como base fundamental da democracia brasileira, a partir dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil anunciados no artigo 3º da Constituição Federal: "I -  construir uma sociedade livre, justa e solidária; II -  garantir o desenvolvimento nacional; III -  erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV -  promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação".

Os sistemas sociais foram tendo novas configurações que influenciaram a formação do pensamento pedagógico atual. E não poderia ser diferente, considerando que a instituição escolar recebe constantemente a influência de todos os acontecimentos pelos quais a sociedade passa. A ideia construída historicamente considera a escola como a instituição do saber sistematizado, sobressaindo desse modo a importância do uso de medidas eficientes com o olhar especialmente voltado para o atendimento das classes economicamente desprovidas de recursos, principalmente nas escolas inseridas nestas realidades precárias. A boa e humanizadora educação é aquela que cria experiências educativas para capacitar os alunos a agir na construção da consciência de si e do empoderamento social, através de exercícios de alteridade e reconhecimento da possibilidade de criação de uma unidade social a partir da diversidade.

Para poder atuar na busca dessa transformação e desenvolvimento, cabe à escola empenhar-se na elaboração de uma proposta que atenda a realização destes objetivos. A elaboração de um projeto pedagógico surge na importância de estabelecer o diálogo entre todos os envolvidos na comunidade escolar, buscando também a sistematização de saberes necessários à prática docente, que só se consolidará a partir das reflexões coletivas.

Atualmente, é lamentável se aceitar que a escola ainda negue muitos valores das camadas sociais mais pobres da população e valoriza inúmeros aspectos dominantes, que o imaginário social nomeia como padrões a ser seguidos. Neste contexto acabam se reproduzindo as injustiças sociais, na medida em que recoloca as pessoas nos lugares já estipulados pelas relações impostas pelo âmbito econômico. O conhecimento e as relações culturais que envolvem os processos educacionais são atuais e suscitam inúmeras possibilidades sociais e políticas alternativas; seja como resistência à imposição retrógrada e conservadora, seja como alternativa de construção de uma sociedade mais igualitária e justa.

O respeito à diversidade, ampliando as relações sociais da escola com a comunidade tem papel decisivo na organização e disposição de recursos que serão usados para mediar a relação do aluno com o docente e com o conhecimento. A interdisciplinaridade valoriza o espaço escolar como espaço social e de humanização. A percepção por parte do docente acerca do imaginário que envolve as relações do aluno dentro da escola pode dar uma ideia das significações que o mesmo vivencia fora da escola.

Para poder falar em cidadania, o professor rompe com suas ideias superficiais de sociedade e se lança num oceano de saberes: sociologia, filosofia, história, psicologia, economia, política, linguística, etc. Estará, então, dotado de competências educacionais para orientar seus alunos em contextos criados por sua contínua formação docente e coletivamente construídos por ele e pelos alunos participantes, como espaço de exercícios para produção de saberes quantitativos e qualitativos, objetivos e subjetivos, éticos e morais. Uma educação escolar de qualidade política, que, sem dúvida, somente é possível com a inserção na cultura da comunidade onde a escola está inserida e na compreensão das ações individuais e coletivas doas alunos e suas significações.

Por isso, o ambiente escolar deve servir para ensinar os educandos e educadores a valorizar as diferenças, garantindo uma troca de experiências em que todos saiam ganhando. No espaço da escola, para resgatar e resguardar a cidadania do sujeito, sem conceitos pré-estabelecidos, sem distinção de raça, cor, credo ou classe social, busca-se fundamentalmente igualar todos perante a lei, aspecto importante, porém não único, nas transformações urgentes que o sistema educacional necessita para efetivar sua função política de preservação da condição humana e de contribuição concreta para a superação das limitações presentes no cotidiano social.

Teoricamente, o diálogo está aberto, porém na prática, a maioria das pessoas têm dificuldades de expressar suas ideias e concepções, com receio de serem rejeitadas, deixando assim de aproveitar o conhecimento e as vivências da cultura da qual fazem parte em suas realidades vivenciadas, para melhorar o contexto da escola. O reconhecimento de si e do outro; para o exercício da liberdade como garantia da condição humana e da experiência da felicidade; e, para a promoção e garantia da justiça como exercício de vivência social coletiva é o contexto que legitima a escola e o papel do educador.

Referências:

FERREIRA, Nilda Teves. Cidadania: uma questão para a educação. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.

FREIRE, Paulo. Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.