Neurociência e Comunicação | A comunicação intrapessoal - por João Rilton

Neurociência

20 Fevereiro, 2018

Hoje vou falar sobre uma questão pouco estudada academicamente e também pouco explorada em nossa sociedade brasileira. Falo sobre a comunicação intrapessoal, que é o ato de se comunicar com nós mesmos. São aquelas vozes que ouvimos na nossa cabeça nos dando dicas, opções e até fazendo comentários a respeito de certas situações cotidianas e dizendo como devemos agir dentro de um assunto específico.

A comunicação intrapessoal está diretamente conectada aos estados de ânimo, de humor, de dinamismo, de perseverança. Dependendo das palavras que usamos para nos comunicar uma situação, o resultado pode ser surpreendente e variado. Alguém que dentro de sua cabeça comunica para si próprio que é deficiente em alguma habilidade, cria no campo dos pensamentos uma reação em cadeia que irá buscar fatos cotidianos que confirmem isso. O que quero dizer é que aquilo que comunicamos para nós mesmos é reconhecido pelo cérebro como um ponto referencial, um filtro, para a tomada de decisões. Portanto se você acredita que falar em público é muito difícil e comunica ao seu cérebro que você não tem habilidade para resolver essa tarefa, o seu cérebro procurará o tempo todo filtrar todas as evidências que comprovem isso, ou seja, ele irá prestar atenção em todos os pequenos deslizes ou alterações emocionais que ocorrerão durante a sua apresentação em público.  O pior é que ele irá ressaltar essas evidências, trazendo muito desconforto emocional para aquela situação. O foco que deveria estar direcionado para o assunto da apresentação, ficará direcionado para a captação de estímulos que comprovem a falta de habilidade. Um exemplo interessante que pode comprovar o que eu digo é a situação que muitos de nós passamos quando queremos comprar um automóvel. O modelo do automóvel que desejamos começará a aparecer com muito mais frequência para os nossos olhos, isso porque o cérebro está conectado com esse desejo e passa a selecionar, através do foco, os estímulos que se enquadram no desejo, ou seja, começamos a ver muitos automóveis parecidos com o que queremos, mas o número real de veículos desse tipo não aumentou só porque passamos a deseja-los, isso acontece por conta de uma estratégia biológica do cérebro quando está focado em um desejo.

Alguns livros considerados de "auto-ajuda" trazem a informação de que se você passar a visualizar algo que queira muito em sua vida, você irá "atrair" isso para você. É claro que não podemos levar essa informação ao pé da letra, um homem com 1,50 dificilmente se tornará um astro do basquete americano, por mais que ele visualize isso diariamente. Esses livros, no meu ponto de vista, não estão completamente errados. Vou me explicar: digamos que você esteja acima do peso e queira muito perder vinte quilos. Se você começar a se visualizar diariamente com o corpo de vinte quilos a menos, e usar uma fonte que gere emoção, como é o caso da música, você estará comunicando ao seu cérebro que você deseja alcançar essa meta. O que começará a acontecer? Você passará a perceber academias em suas rotas de deslocamento, começará a desenvolver uma vontade de ler coisas sobre o assunto saúde, passará a prestar mais atenção em pessoas que tem o corpo parecido com o que você deseja. Muitos estímulos serão captados para que a sua visualização se concretize. Não é mágica ou esoterismo, é um processo neurobiológico, é a forma como o cérebro constrói suas ações, sempre baseado nos desejos mostrados pelo pensamento. Por tudo isso, viva a comunicação.